Hoje, estudando um pouco sobre esse assunto de tão pouca importância para tantos fotógrafos, encontrei um blog Português chamado “Palavra Puxa Photo” onde um fotógrafo (que não consegui descobrir o nome), publica um artigo da Revista FotoDigital deste mês, de Luiz Carvalho e ainda comenta depois alguns pontos. Achei muito inteligente! Segue o artigo e comentário…
O que ganhará a humanidade, a fotografia, o jornalismo com imagens despudoradas de crianças mutiladas, de seres na maior das humilhações humanas? Quem ganha com fotos que já vimos, agora mostradas até à sociedade, numa atitude moralista e pseudo-denunciadora, que mais não fazem que promover a banalidade do horror? Quem ganha é o fotógrafo, em fama e mercado, por vezes em gordos cachês.
Não estou a defender fotografias feitas por “xoninhas” que não fazem uma foto sem pedir licença e que têm medo da sombra das suas próprias imagens. Defendo que quanto mais terrível é uma cena, mais elevação estética e ética deve ter o fotógrafo. Se for capaz, claro.
Sei que há uma nova geração de fotojornalistas para quem a ideia de humanismo é um problema. Usam uma técnica agressiva eu diria, mesmo correndo o risco do que vou dizer, usam os métodos dos paparazzi para fazerem fotografias demagógicas, piegas e por vezes ignóbeis.
Grande-angular, proximidade física das pessoas, enquadramentos entornados para darem uma ideia de rapidez e espontaneidade (os câmeras de tv usam o tremer do plano para dar mais emoção!), puxam pelos céus, pelo contraste e gostam do “flou” e do tremido. Utilizam um menu de efeitos para melhor evidenciarem uma propaganda demagógica. Quem sabe de fotografia reconhece que são estas as formas mais básicas para disfarçar talento e saber técnico. Mas essa é uma escola que está a ganhar adeptos.
Gostaria de ver discutido este tema da ética no fotojornalismo. Gostaria de saber o que pensa aquela mãe de 19 anos que foi fotografada com o seu recém-nascido ao colo numa ambulância. Que pensará ela ao saber que aquele seu mau momento valeu um prêmio de 15 mil euros ao fotógrafo que ali estava como um estranho? Que sentirá o bebê quando crescer e vir aquela fotografia? Como nos sentiríamos nós, se presenciássemos aquelas cenas e a víssemos mais tarde exposta numa sala climatizada, bem iluminada, num happening cultural em que milhares param à frente da foto comentando uma cena íntima de sofrimento?
A discussão do direito à imagem não pode ser circunscrita sempre aos paparazzis e à privacidade das figuras do jet-set. E não se pode continuar a achar que há um foto jornalismo moralmente superior porque só registra pobres e explorados, e que pode mostrar tudo e todos sem regras e que os “outros” que ganham a vida a fotografar ricos são uns fotógrafos sem lei que não respeitam privacidades.
Comentário:
O que me fez transcrever este artigo foi precisamente o sentido e o cuidado que eu tenho ao fazer retratos. Retratos que nem sempre são com a autorização dos visados, retratos que eu gosto de fazer. Retratos que procuro que mostrem as pessoas e os ambientes tal e como eles são.
Aqui há coisa de três semanas fui fazer uns retratos que deveriam ser usados eventualmente numa instalação cujo título seria “Olhares sobre…”. Levantei-me cedo e decidi sair e “perder-me” pela localidade. Fui até ao largo da igreja e esperei a chegada dos idosos ao ponto de reunião. É assim que eles convivem agora. Reúnem-se num ponto comum conversam devagar sobre coisas banais da vida. O tempo para eles passa mais devagar. Mas eles têm impressas no rosto as agruras de uma vida difícil, que por isso não teve de ser infeliz. As fotografias ficaram bucólicas, mas reais, retratos de vida. Objectivos, acutilantes, pragmáticos. É este o olhar que eu tenho sobre a fotografia. É assim que eu a vejo. É assim que a concebo.
Não posso precisar a data, não seria nada difícil fazê-lo, mas a verdade é que não me apetece, nem tão pouco me parece relevante visar datas para aquilo que vou expor a seguir. Os que se lembram do episódio da morte de Jonas Savimbi, lembrar-se-ão concerteza das imagens do seu cadáver que correram o Mundo e que chegaram até nós via TV. E TV ou Fotografia são para mim muito semelhantes na ética com que as imagens são conseguidas e os fins para que são usados. Independentemente da sua ideologia, independentemente do que foi a vida deste destacado membro da sociedade politica angolana, independentemente do beneficio ou prejuízo que causou ao seu país, este senhor merecia dignidade. Deveria ter sido protegido e apresentado ao mundo com dignidade. Mostrar o seu cadáver sujo, despojado, mal vestido, com as moscas a pousarem-lhe na face não é imagem que se deva transmitir de Ninguém. Seja ele Jonas Savimbi, ou Usama Bin Laden. As imagens do enforcamento de Saddam Hussein são outro exemplo.
O que acho é que por serem o que são, e só por terem sido o que foram e são, são precisamente alvos privilegiados da depredação dos repórteres. Não estaremos nós, tanto recolectores de imagens, como consumidores delas mesmas, a ser um pouco como estas pessoas? Algum destes vivem para espalhar o Terror, vivem vidas com as mãos manchadas de sangue, mas mal são derrotados, não hesitamos em mostrar os seus cadáveres, os seus fins quais troféus. Será que ninguém pensa que há pessoas, seres humanos que se sentem ofendidos por estes comportamentos? Isto pode e deve transportar-se para o quotidiano.
O que quero em última instância dizer é que o sentido ético das pessoas deveria crescer na mesma grandeza com que as máquinas fotográficas proliferam na sociedade. Eu digo muitas vezes que sou um acérrimo defensor da democratização da fotografia, que ela mesma pode ser um factor de desenvolvimento do sentido estético. Isto é efectivamente educação. É, a meu ver benéfico para a sociedade. O Reverso da medalha está na falta de ética.
Só para terminar, e para que pensem:
Há uns quatro anos, algures na Beira Alta, no concelho de Mêda, passei numa estrada onde uma ovelha tinha acabado de ser atropelada. Alguém estava ali a fotografar a angústia do animal…
Pensem bem nisto.